Por: Vitor Yano – Pré-vestibular


Na obra “O que é filosofia”, os filósofos Deleuze e Guattari definem a obra de arte como um bloco de percepções e de afetos que se conserva no tempo.
Segundo essa concepção, tais valores interagem com os observadores das obras, contribuindo com a construção de suas identidades, ou ainda conflitando-se com elas. Assim, nesse último caso, vem se enquadrando a derrubada de monumentos históricos. Isso porque os principais alvos dos movimentos iconoclastas da atualidade são as efígies que carregam os signos de opressão e de exploração do período colonial, sendo elas incompatíveis aos grupos que lutam na atualidade por mais direitos, como o dos negros e o dos indígenas.
Urge ressaltar, dessa maneira, o passadismo dessas obras que têm sido hostilizadas pelos ativistas sociais, pois, diversas vezes, elas não contribuem à construção identitárias da comunidade à qual estão expostas, tal como é
esperado de um patrimônio histórico. Ao revés disso, tais monumentos, na realidade, contribuem com a legitimação de grupos opressores e antiquados, como pôde se notar no episódio da retirada da estátua do general dos
confederados Robert Lee em Charlottesville, nos Estados Unidos, que conflagrou uma revolta de movimentos neonazistas e ultraconservadores.
Com isso, compreende-se como alguns desses “patrimônios”, na verdade, transmitem desafetos dentro da sociedade.
Desse ponto de vista, não é possível equiparar os movimentos de derrubada de efígies como simples atos de vandalismos, porque, diversas vezes, o próprio ato de retirada carrega novas percepções e afetos mais
coletivos que se prolongarão no tempo. Na França, por exemplo, a ausência da Bastilha, que foi tomada pelos revolucionários franceses no século XVIII, passou a simbolizar a queda do Antigo Regime e a consolidação dos valores
liberais, como a liberdade. Dessa maneira, na atualidade, o vazio deixado por monumentos colonialistas e de outros momentos históricos de opressão de grupos politicamente minoritários ajudam na construção de uma
identidade multiculturalista, conforme a ideia de diversidade e de isonomia são mais legitimadas.
Nesse sentido, se por uma lado as obras de arte preservam perspectivas e emoções de outros períodos da História, cabe aos contemporâneos julgar se esses valores transmitidos pelos antepassados ainda devem ser
cultuados nos dias de hoje. Caso tais noções não correspondam mais à construção de uma identidade cultural saudável, desse modo, os movimentos de derrubada de monumentos e de ressignificação tornam-se
legítimos em seus propósitos de defender seus direitos mais básicos como civis e como seres humanos.