Por: Murilo Ferreira – 9o.ano

Você já se sentiu em uma situação de mesmice? Todos os dias que passam em sua vida são exatamente iguais ao anterior. Eu passo por isso há um bom tempo. Eu acordo, tomo banho, vou à escola, a professora faz a chamada, quando eu ouço o nome “Roberto Augusto”, eu respondo, “AQUI”. Isso acontece todos os dias.

Minha infância foi difícil. Aos cinco anos, meu pai assassinou minha mãe e foi preso por homicídio doloso. Fui adotado depois de ficar dois anos no orfanato, e aos meus nove anos, me avisaram da morte do meu pai biológico.

Na escola, um colega de classe me atormenta desde o quarto ano na escola, roubando meus materiais, pegando o dinheiro para o meu lanche e, ocasionalmente, se metendo em brigas e me batendo. Eu gosto de pensar na escola como uma hierarquia com parâmetros de força. Primeiro no topo da lista, ficam os atletas do terceiro ano. Depois , vem um cara que me bate, talvez para se sentir como os do topo da lista. Lá embaixo, vem o resto: Os “nerds”, os neutros (que eu não consigo separar em classes) e os que sofrem bullying, que conheço informalmente como otários, perdedores ou bullyinados.

Eu tenho um perfil de uma pessoa frágil fisicamente: uso óculos, sou baixo , fraco, e sou praticamente invisível na aula. Não tenho amigos e muitos me chamam de louco.

Esse apelido em particular se deve por causa que eu ouvia vozes em minha cabeça. No início eram apenas sussuros, mas elas se tornaram mais claras ultimamente . Era uma voz grossa e de adulto. Meu psicólogo disse que talvez fosse um trauma ou algo assim. Na maior parte das vezes eu apenas ignoro a voz.

Tem uma menina no colégio que eu gosto bastante. Eu me perguntava por que ela não me vê? Por trás desses óculos há um sujeito honesto. Estas espinhas dizem apenas que sou jovem…

Recentemente, eu soube que ela namorava justamente o Jailson, o cara que me bate.

Na aula de hoje, porém, tudo estava diferente. Jailson pediu o dinheiro do lanche. Foi aí que eu fiz a besteira. Achei que poderia impressionar a Juliana, a garota que eu gosto, se eu o enfrentasse.

Mas, estranhamente prevísivel, ele me socou no olho antes de eu poder reagir. Entreguei o dinheiro a ele e, com raiva, fui ao banheiro lavar meu rosto. Meus óculos quebraram e um caco de vidro cortou perto do olho, e estava sangrando bastante.

No banheiro eu abri a torneira. Mas, na hora de lavar o rosto, eu achei estranhamente prazeroso olhar as gotas de sangue caindo e se misturando na água fria. Depois de olhar para a parede da pia por um tempo, a voz subitamente e lentamente disse:

-É esse seu legado? Apanhar até o fim de sua vida? Deixar a vida se desdobrar ao seu redor?

Ela parou de falar. Então eu perguntei a ela:

-Quem é você?

-Achei que reconheceria a minha voz.

Não sei o porquê, mas olhei para o espelho. Não era o meu reflexo, mas um homem com uma barba curta e um sorriso maléfico.

Eu me assustei e caí de costas no chão. Depois de me tranquilizar, pensei um pouco , e falei:

-Pai?

-Certamente!

-Isso é impossível! Você morreu há sete anos!

-Nem mesmo a morte para um assassino como eu!!!

-Você fala isso como se fosse normal matar as pessoas!

– Está em nosso sangue. Seu bisavô, tataravô e sua avó também eram assassinos. Do mesmo jeito que você me vê e me ouve, eu ouço eles. Aquele garoto te faz mal? faça como nós. Revide!!

-Eu não vou matar ninguém!

-Você pensa assim por enquanto. Mas quando chegar a hora, vai saber o que fazer.

No reflexo do eseplho, ele se virou de costas e se retirou.

Em um flash de luz, eu abri os olhos e estava de volta na sala de aula. A minha visão estava embaçada e estava com dor de cabeça. Eu ouvi o Jailson falando:

-Entregue o dinheiro!

Eu havia voltado. Aquilo foi um sonho, ou minha imaginação.

Olhei para ele e disse:

-Não!

Ele me deu um soco.  O sangue espirrou na minha folha de tarefas. Uma gota escorreu até chegar na palavra “agora”. Era agora que precisava acontecer.

Peguei a tesoura na mesa e finquei na parte esquerda da barriga dele. Todos na sala correram para fora. Juliana me olhou no rosto e correu.

Me ajoelhei no chão e fechei os olhos. Estava me sentindo leve.

Quando acordei, estava na prisão. Essa história se passou pela minha cabeça várias vezes, me atormentando por longos anos.

Hoje, tenho quarenta e três anos, e estou deitado na maca para receber a injeção letal. Senti uma leve picada. Tudo começou a escurecer. Meus pensamentos começaram a se dissolver. Depois disso, eu vi uma luz branca. Então eu entendi que estava morrr…